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Tudo começou mais ou menos oito mil anos atrás. Um grupo de pessoas muito bem intencionadas teve a belíssima ideia de fixar residência através do que chamamos, hoje, sem qualquer motivo especial, de 'sobrevivência'. Isso não faz diferença, o que importa é que tiveram a ideia de cultivar trigo, cevada, milho e ter um endereço fixo - onde poderiam encomendar produtos sem utilidade alguma através do que viria a ser, dentro de alguns milhares de anos, a internet. O grande problema com as boas intenções são as consequências. Se você já viveu um mínimo que seja, certamente sabe que os problemas sempre são as consequências. E uma das consequências da belíssima ideia de residência fixa foi a de que, aproximadamente oito mil anos depois, além do advento incrível da internet, em uma segunda-feira muito animadora, um homem entrou em um ônibus, com os olhos irritados, com uma voz incrivelmente sonora, dono de um corpo magro e doentio, e anunciou:

Senhores passageiros,

Meu nome é Paulo. Tenho 36 anos. Minha filhinha de 2 anos acaba de morrer de Aids. Morreu nessa manhã. Felizmente a prefeitura de São Paulo me ofereceu todo o apoio. Desde o funeral até o jazigo. Acontece, contudo, que minha filha não morreu em São Paulo, mas sim na cidade em que estava sendo tratada, e a prefeitura não cobre a taxa de R$138,00 do que eles chamam de "taxa de translado de corpos". Eu não conhecia essa taxa. Eu não tenho condições de pagar essa taxa. Depois de pedir ajuda a todos os meus amigos, ainda faltam R$38,00. Eu nunca fiz isso e Deus sabe que não me orgulho, mas não tenho mais o que fazer, não tenho mais a quem pedir ajuda...

Foi quando ele começou a chorar. Recompôs-se e, com as mãos tremendo, voltou a falar:

Agradeceria do fundo do meu coração qualquer ajuda. É o pedido de um pai. Eu só quero enterrar minha filha.

Tirei da carteira R$2,00. Algumas outras pessoas se solidarizaram e começaram a entregar dois reais ao homem, que ainda tinha as mãos trêmulas e um olhar de vergonha infinita. Assim que ele terminou e agradeceu a solidariedade, um rapaz vestido de modo roto, aparentando humildade de todo, perguntou:

Quanto o senhor arrecadou?

O homem contou o dinheiro e constatou que havia conseguido exatamente dezoito reais. Em seguida o rapaz pegou uma carteira surrada do bolso e tirou de lá uma nota de R$20,00. O homem não quis aceitar. Disse que era muito dinheiro, que não poderia. Foi quando, pela segunda vez na minha vida, escutei a seguinte frase:

Esse dinheiro não é meu. É seu. Não tem o que você ou qualquer um aqui diga ou faça para que eu fique com uma quantia que não me pertence.

Ele pegou o dinheiro, com as mãos tremendo, sem saber o que dizer, sentou no chão do ônibus e começou a chorar como uma criança. Algumas pessoas no ônibus choraram com ele. Eu chorei com ele. Não vou falar aqui quando foi a primeira vez que ouvi essa frase, isso não importa. Quando o ônibus chegou ao ponto do HC, ele agradeceu mais uma vez e desceu, secando os olhos.

Você sabe, não sabe? A gente pode se esforçar pra racionalizar isso tudo, mas você sabe, eu sei, sabemos que tem muita coisa errada com o que mediocremente chamamos de realidade. Com o que chamamos de vida. Com o que chamamos de lar. Você pode se esforçar pra dizer que não há um problema de fato, ou que essa é uma situação pontual sem importância, que a culpa é do cara que não foi capaz de seja lá o que for aquilo de que ele deveria ser capaz, que isso não é nada perto do que as crianças (únicas dignadas de compaixão) passam na África e temos problemas mais graves com os quais nos preocuparmos. Você pode. Mas as crianças da África, os adultos na áfrica, na Rússia, você, eu, esse homem que perdeu uma filha e não tinha dinheiro pra transportar o corpo de uma cidade para outra, todos os mendigos do mundo, e tudo o mais, exatamente tudo isso que vivemos começou com a mesma brilhante ideia. A ideia de parar num lugar bonito, plantar cevada, trigo, milho e, ainda para sobreviver, matar todo mundo que não fizesse parte do grupo inicial que foi plantar milho naquele pedaço de terra. Por quê? Ah, meu bem, porque minha vida vale mais que a sua. E a sua vale mais do que a minha...

Pensei em terminar com um ‘vamos todos plantar batatas’, mas achei melhor não. Eu precisaria de um pedaço de terra e uma arma pra isso.




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Esse texto foi publicado pelo Kaio no blog dele em 6 de março de 2012. E não com a intenção de ser divulgado, mas eu divulguei mesmo assim quando ele me mostrou. Agora mesmo, nem pedi autorização pra postar, apenas o comuniquei do fato. Eu adoro o Kaio e seus escritos. Ou melhor, adoro os escritos do Kaio e o Kaio, afinal, foram os excelentes textos dele que me fizeram conhecer ele. Depois de encontros e desencontros, encontramo-nos os dois no facebook (ou antes, ele me encontrou) e de imediato começamos a conversar como até então não havíamos tido oportunidade. Enfim, o que quero mesmo dizer é que o Kaio é um dos poucos que conheci na blogosfera e que sempre me agradaram com seus textos, sem exceção. Então não podia deixar de compartilhar um texto dele aqui. Escolhi esse por ser o que, creio, mais facilmente irá agradar. Outros dos escritos dele pelos quais sou apaixonada, talvez não fossem tão encantadores e expressivos pra muitos do que são pra mim. Definitivamente, pouca gente compreenderia metade do que tagarelamos, mas enfim, a gente se entende e isso basta. Além do mais, esse é um texto que expõe um fato cotidiano e com o qual vez ou outra eu me deparo e tenho certeza que muitos também, então creio que é impossível não se encantar e, especialmente, não refletir sobre. Nunca falei tanto num texto alheio, então pra resumir: Espero que tenham gostado tanto quanto eu!

4 comentários:

Teka disse...

Texto EXCELENTE!!! Parabéns pro Kaio!!

Pandora disse...

Esse texto me lembrou uma frase de Machado de Assis: "Ao vencedor as batatas." Me lembrou também a teoria de um filosofo cujo nome não me recordo, só sei que ele disse que alguém devia ter chamado de louco o primeiro homem que fez uma cerca e disse "isso é meu e não teu"!

Enfim... dias difíceis o nosso nos quais alguns tem muita coisa e outros precisam mendigar o pão!

Thomas Aner disse...

De fato um texto e tanto! O Paulo me fez lembrar das inumeras pessoas que vi pedindo auxilio dentro dos ônibus de Vitória, todos sempre com histórias similares, permeada de desgraças e tragédias. Vou tentar ser mais solidário em relação a isso e deixar de ser tão ressabiado...

Gui Spigolan disse...

Eu também lembrei bastante de algumas pessoas que vão nos ônibus aqui da minha cidade para pedir dinheiro dizendo que têm Aids.

Eu nunca dou, pois eu sempre fico com aquele remorso de "será que tem Aids mesmo? E se tiver, será que usará esse dinheiro para com a sua saúde? Ou vai comprar cachaça?"

Eu gosto de ajudar pessoas, mas não com dinheiro!

furtandotextos.blogspot.com