Através de Floriano, Veríssimo

Não são poucos os que dizem que Floriano Terra Cambará, personagem principal de O Arquipélago, parte final d'O Tempo e o Vento, é o alter-ego de Erico Veríssimo ou algo do gênero. Eu não duvido, além de perceber um sentimento extremado no personagem - também escritor -, sou daquelas que defende que todo personagem tem algo de seu autor, nada é puramente criado. (E, sim, eu acredito em Garp.)

Desde que finalizei a trilogia do Veríssimo, não deixo de remoer Floriano. Há mais de seis anos que vez ou outra me pego a pensar nele, às vezes com mais intensidade, outras em menor grau. Depois de um tempo de sossego, Floriano me reapareceu. Não consigo botar o pé pra fora sem lembrar dele na França, remoendo suas próprias amarguras.

É ridículo, mas a verdade é que quando li O Arquipélago, pensei, após minha mãe dizer que jamais entendeu o Floriano, enquanto eu o achava altamente compreensível - até demais: "Então talvez eu tenha alguma chance de ser escritora, afinal não só entendo o que ele quer dizer, como por vezes me vi fazendo as mesmas comparações e análises de mundo."

Nos últimos tempos ele me fez cada vez mais sentido, apesar de fazer anos que eu não encosto em um livro da série, e nesses dias de inverno cheios de neve eu tenho tentado me guiar pelos passos dele. Garp foi para a Áustria para vivenciar experiências e, assim, poder escrever. Floriano, queria fugir de seus fantasmas e mais os remoeu. Acabou voltando para Santa Fé para 'terminar de nascer' (e jamais esquecerei essa expressão). Minha viagem foi bastante repentina, então não posso dizer que tenho expectativas de que ela seja assim ou assado, resulte nisso ou naquilo, não, vamos ver o que acontece.

Não nego que um dos motivos que me fez aceitar essa viagem foi tirar uma folga dos problemas que me atormentavam (aliás, só agora vejo como me atormentavam, redescobri a tranquilidade), mas confesso que estou surpresa com esse ressurgimento do Floriano. Tenho me pego nas mesmas atitudes que ele (que, confesso, não adorava), como resgatar cenas que eu devia esquecer, imaginar o que devia ter dito/feito, fantasiar o que virá a seguir. Se ele chegou à conclusão que devia ter uma conversa séria com seu pai para se libertar, também tenho me encaminhado para uma solução parecida, apesar de meu pai não ser o alvo (e descobri isso remoendo o Floriano).

Enfim, melhor deixar as coisas acontecerem, melhor torcer para que o Floriano se mantenha tão longe quanto possível com suas nóias e próximo o suficiente com suas bonitas palavras. Não, não espero que no fim disso eu escreva uma livro de sucesso que comprove minha segurança, como o Floriano e o Garp fizeram, se conseguir rascunhar algo lógico vez por outra já me satisfaço, até porquê, como disse o último, 'sempre há suicídios entre as pessoas que não conseguem dizer o que querem'.

Mil desculpas pelas falhas no texto: fui interrompida por três horas enquanto o escrevia, sem contar que a ideia original dele se encontra entre os trens alemães, a perdi pelo caminho e por mais que buscasse ajuda nas canções dos Ramil, não consegui resgatar o espírito da coisa. E, sim, sei que não pode ser totalmente compreendido, isso é mais resultado das minhas conclusões sobre e para mim mesma do que qualquer outra coisa. Quem sabe daqui duas semanas eu me redima...

1 comentários:

Alê Lemos disse...

É tão legal quando rola uma identificação assim com um personagem de livro! Só que as soluções que dou pra mim mesma são sempre diferentes das que os personagens adotaram. Aliais, o mais interessante quando isso acontece, é que descubro cada vez mais o quão esquisita eu sou, só me identifico com os personagens mais bizarros.