As coisas mudaram

Nesta segunda-feira eu não tenho nenhuma grande descoberta a compartilhar (talvez semana que vem, soube que no domingo vai ter um concerto de acordeon aqui na cidade - dificilmente terá bombachas e milongas, mas mesmo assim acho que pode me agradar), na verdade tive um fim de semana com mais autoanálises do que com contato com o mundo externo. 

Hey, pera, calma. Não, não tô deprimida. Apesar de uma sexta-feira embalada por Jimi Joe e sua saudade do futuro (uma das maiores preciosidades do rock gaúcho dos últimos anos) e de um sábado em que acordei com uma vontade imensa de ouvir Diários da Chuva, entre outras maravilhas do Reny, estou cá muito bem.

O ano de 2012, especialmente a metade final, foi abominável pra mim em 80% do tempo. Muita gente não tem noção do que eu tô falando porque eu realmente não ficava gritando por aí minha podridão, mas quando eu digo que tava podre, acreditem, porque pra eu dizer um troço desses tem que ser muito séria a questão (é tipo a bolada que um dos guris me deu sexta e quase quebrou meu nariz. Já me esborrachei a valer nessa vida, mas pra me fazer parar não é fácil, bom, essa bolada me parou). Foi uma época em que ouvia Wander Wildner incansavelmente, um dos hábitos que me deixaram consciente, e numa das músicas ele diz: "Agora você está triste, amanhã poderá rir disso, as coisas mudam..."

Ainda não estou rindo de tudo, mas me sinto bem por não sentir mais a angústia que sentia ao ficar 24h dentro de casa, por exemplo. É bom não ter que se preocupar com cada passo que se dá, com cada palavra que se diz e, especialmente, que se escuta. Vi mil vezes o clipe dessa música, gravado em Berlin, e veja, daqui duas semanas estou a caminho da capital alemã. O "amanhã" ao qual o Wander se referia estava tão longe, mas agora tá ali do lado. As coisas realmente mudaram.



A minha tarde de sábado foi investida numa volta no parque da cidade e num chimarrão (e numa sentada num banco congelado que me rendeu uma dor de garganta). Sozinha. E eu realmente não me importo com isso, nunca me importei de andar por aí sozinha e continuo a não me importar. Talvez a culpa seja toda do Erico Veríssimo que criou Floriano Cambará, ou talvez o Hermann Hesse, que me deu tanto no que pensar, também tenha seu bocado de culpa, mas o fato é que gosto de ficar por aí divagando sobre minhas próprias nóias e rindo dos fiascos passados com os amigos (o que me faz parecer louca, inevitavelmente). 

O domingo me deu um susto quando, ao ligar o rádio aqui na Alemanha, ouvi sobre o incêndio em Santa Maria, terra natal do meu pai, sobre o qual vi brevemente no twitter horas antes e não dei grande importância. Aos que não sabem, originalmente os Seerig se instalaram em Santa Maria, o coração do Rio Grande do Sul, e meu vô acabou subindo a serra por questões de saúde. Enfim, o fato é que nunca tive grande contato com os familiares de lá, uma visita lá de vez em quando, mas meu primeiro pensamento foi pros primos que eu mal conheço e moram lá, foi pra cidade que visitei em época de eleições no ano passado e quase me ensurdeceu, foi pras histórias de infância do meu pai, foi pras lembranças que eu tinha de lá. O fato de ter ou não conhecidos como vítimas, não diminui meu susto. Como disse o Otávio hoje no twitter, "só quem realmente sente essa perda é quem já foi a Santa Maria".

Não sei se é a distância, não sei se é o fato de conhecer a cidade, a verdade é que nunca senti uma tragédia como senti essa. Não há muito o que se dizer, até porque não se pode chorar sobre o leite derramado, mas não há como esquecer o abalo. Conversando com minha Gastmutter, ela me disse que perto da cidade dos pais dela, na França, nos anos 70 uma discoteca incendiou, houve várias vítimas e nunca mais se abriu uma discoteca na cidade. Hoje as pessoas levam flores ao local, que ficou como um memorial do ocorrido. Nesse link, achei mais informações do caso:

Club Cinq, St. Laurent du Pont, France 
November 20, 1971 
Deaths: 143

Enfim, que as causas do incêndio sejam logo confirmadas e, especialmente, que isso sirva de lição para que lugares públicos sejam melhor cuidados em relação a prevenção de incêndios. E as vítimas? Bom, pode ser infantil da minha parte, mas sempre creio que as coisas acontecem como e quando têm que acontecer, acredito que as pessoas que morrem subitamente já fizeram o que tinham que fazer e que as que levaram um susto realmente precisam rever certas coisas. 

Ok, chega de tragédia. O fato é que as coisas mudaram, por mais impossível que isso me parecesse. Ou melhor, não mudaram, eu apenas tive oportunidade (e muito obrigado a todos que me empurraram pra cá) de escapar de toda essa bagunça que me pressionava, agora o que for pra ser, será. Citando mais um pouco de Wander (como na minha despedida de Caxias), "vou levantar as âncoras, abrir as trancas, sentir que o mundo é o que sou".

Daqui uns dez dias me mando pra Berlin, terra de Christiane F., outra grande responsável pela manutenção da minha consciência (sim, minha grande heroína é uma drogada, eu sei, tenho problemas sérios). E, sim, eu lhes prometo que trarei boas notícias quando eu voltar, se eu não voltar as boas notícias estarão lá, se por acaso as boas notícias não encontrarem... como é mesmo, Wander?


Bis bald!

Esse texto foi originalmente publicado segunda-feira passada (28/02) no meu blog de viagem. Achei importante registrar aqui simplesmente porque descreve, de certa forma, como me sinto por aqui. Espero que daqui quinze dias tenha algo novo e interessante pra postar por aqui. E não consegui deixar os vídeos do tamanho certo da página, entschuldigung.
 

1 comentários:

Marcelly Seixas Abreu disse...

Adorei o post! O livro parece ser otimo!
Beijoos!

http://moreof-me.blogspot.com.br/