♫ É bonita, é bonita e é bonita... ♫

Não sei se vocês sabem, mas vou lhes contar uma breve parte da história da minha vida: eu sou atleta paralímpica. Sim, isso quer dizer que eu tenho uma deficiência física, treino e participo de competições paralímpicas. Confesso que antes eu tinha um certo receio de falar sobre ser deficiente nas redes sociais. Explico: na vida já tenho que lidar com olhares de pessoas que me veem como uma super-heroína e outras que me veem como incapaz (essas em minoria, felizmente). Uma pequena parte me vê como de fato sou: mais uma na multidão, com o diferencial de que corro atrás do que eu quero, que tenho amor à vida e não desisto porque disseram que seria difícil ou complicado realizar x coisa. Ou seja, é uma simples questão de amar a vida e de entender que só temos o agora pra fazermos a nossa vida valer a pena. Não é questão de ter super poderes. É questão, repito, pura e simplesmente de amor. 
E, puxa vida, nas redes sociais, só queria ser a Erica Ferro, ou ainda, a @ericona. Não a menina especial, a menina que é exemplo de superação na "vida real", a menina que conquistou várias coisas na vida, mesmo tendo uma deficiência. Aliás, essas palavrinhas juntas me desconcertam "mesmo tendo uma deficiência", como se deficiência estivesse desvinculada do poder de conquista. E, quem tem cérebro e o usa, sabe muito bem que ser deficiente não tem a ver com ser ineficiente. Ter uma deficiência é mero detalhe na minha vida. Eu sou um ser humano, antes de ser deficiente. E é assim que eu gosto de ser vista. Como alguém que tem, sim, suas diferenças, algumas limitações, mas, sobretudo, alguém que tenta levar a vida de maneira normal, como todo mundo. As minhas limitações são visíveis para o mundo, mas, para mim, talvez não sejam nem tão limitantes assim. Não ter uma mão e um pé não é tão terrível quanto possa parecer. Se eu fosse mulherzinha (veja, o mulherzinha* a que me refiro é a mulher vaidosa ao extremo), eu poderia me entristecer porque ainda não arrumei uma maneira de usar salto. Mas isso não é tão relevante na minha vida. Usar salto é algo tão pequeno, tão mínimo, quase invisível, diante das coisas enormes que eu já fiz na vida, das coisas lindas que eu tenho no currículo da minha existência e das coisas que ainda pretendo fazer.
É difícil ser deficiente e não chamar a atenção por onde quer que passe. Deficientes chamam a atenção, porque as pessoas costumam nos ver como seres especiais* (*ô cisma que eu tenho com essa palavra! ~outros deficientes me entenderão~ *risos*), como seres que fazem coisas sobre-humanas. Tudo bem, tudo bem, nós, deficientes, superamos barreiras, quebramos paradigmas, conquistamos nosso lugar ao sol, independentemente dos olhares reprovadores e/ou incrédulos. Contudo, todas as pessoas têm suas limitações, suas barreiras, seus inimigos interiores e invisíveis. Todo mundo tem algo a superar. Todo mundo tem algo a vencer. Então acho que não precisam nos endeusar. Queremos respeito. Queremos andar pelas ruas sem causar comoção ou receber batidinhas nas costas seguidas de palavrinhas como "puxa, parabéns por x coisa", "puxa, é bom ter você aqui...", "puxa, mesmo tendo uma deficiência, você conquistou tantas coisas... Parabéns!". Nós só queremos ser vistos como os seres humanos que somos. É tão simples. E era por isso que eu não falava no blog abertamente nem nas redes sociais que eu era deficiente. Mas, claro, os meus amigos virtuais sabiam da minha deficiência (eu contava quando achava que deveria contar). Tenho vários amigos virtuais deficientes, aliás. Eu não escondia a minha deficiência, apenas não dizia isso abertamente nos meus tweets, nas minhas facebookadas, nos meus posts, porque eu não via necessidade. E, principalmente, porque aqui, na internet, as pessoas enxergavam primeiramente a Erica pensante, não a Erica com uma deficiência. E eu gostava disso, e gosto disso. Sabe o que é o mais lindo? É que há tempos venho falando uma coisa ou outra sobre deficiência nas redes sociais, sobre minha deficiência em tom brincalhão, tenho colocado, orgulhosamente, fotos no facebook mostrando os cotocos* (amputações, que no meu caso não são bem amputações... minha deficiência é congênita) e as pessoas que antes só conheciam a Erica pensante não se chocaram ao conhecerem a Erica deficiente. Isso mostra que, quando se conhece uma pessoa, quero dizer, o modo de pensar de uma pessoa, suas características físicas se tornam meros detalhes. O que vale é quem somos, não quem parecemos ser. Eu nem iria fazer esse post tão gigantesco. Iria apenas colocar dois vídeos que me emocionaram nessa semana. E isso vai soar um tanto contraditório, porque eu disse que deficientes não são super-heróis e não devem ser endeusados, e os vídeos são motivacionais, que mostram a superação da deficiência na sua forma mais plena, mas, especialmente, mostram o amor à vida. E foi por isso que eu chorei. Porque eu sempre me emociono quando as pessoas amam a vida de uma forma intensa e fazem cada minuto de sua existência valer pena.

O primeiro vídeo foi idealizado e produzido por Renato Cabral. Creio que se encaixe no quesito curta-metragem. Mas, enfim, é um vídeo lindo, extremamente sensível, que mostra, em apenas cinco minutos, o que realmente é viver. A nadadora paralímpica Letícia Ferreira fez uma participação linda no vídeo. Confiram:

O segundo é um clipe da Banda Fresno. Não acompanho a carreira da banda´, consequentemente, não conheço as músicas dela. Apenas essa, aliás. Conheci-a através de um post do Comitê Paralímpico Brasileiro, porque alguns atletas da seleção de natação, atletismo e paracanoagem participaram desse clipe. É um vídeo motivacional. Tem a participação da Paloma Sampaio, recordista brasileira nos 100m peito, na classe SB5* (S de swimming, natação em inglês, B de Breaststroke, que é peito, nado peito, em inglês, e 5 é o grau da deficiência); do Fernando Fernandes, ex-BBB, que, após um acidente de carro, perdeu o movimento das pernas, mas achou na paracanoagem uma nova maneira de viver, e já conseguiu vários títulos mundiais e paralímpicos; Alan Fonteles, que virou notícia nas Paralimpíadas após vencer a lenda, até então, Oscar Pistorius. E outras histórias que, com certeza, também merecem ser conhecidas. Vejam aí:



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Para finalizar toda essa minha falação, quero dizer uma porção de clichês verdadeiríssimos: amem a vida, façam essa coisa valer a pena, porque nós só temos o agora. Não podemos deixar pra depois, porque sabe-se lá se terá um depois. Sejamos o que queremos ser hoje (de preferência, agora). Não tenhamos medo. Medo de quê? Medo de quem? Não, não cabe medo na vida daqueles que querem conquistar o mundo. Não cabe medo na vida de quem quer ser feliz. Essa é a minha lei. Eu tenho vivido assim: expulsando o medo toda vez que ele insiste em atravancar o meu caminho, chutando os empecilhos da estrada, saltando as barreiras, sendo maior que as muralhas. E o motivo é muito simples, mas precioso: eu amo a vida.



11 comentários:

Allyne Araújo disse...

Em todos os esses anos, eu só aprendi a cada vez mais admirar pessoas q tem coragem de assumir o q são, e como vem o mundo. Isso é maravilhoso! é belo! e não há porque ter medo de ser o q se é.. Mas o que acontece é q ainda vivemos num mundo de pessoas idiotas, q ainda demorarão um pouco pra mudar o modo como pensam.. mas é com atitudes como essas q vc começa a perceber: Um dia chegaremos lá!
Belo post Erica, e cara: Eu te amo desse jeito louco, pensante e cortante q vc tem. Bjo

Alê Lemos disse...

To emocionadinha kkkk. O pior é q to planejando deixar um monte de coisas pra depois kkkkk aiaiai. Mas sabe o que mais gostei nele? é que vc com seu depoimento me fez me colocar no seu lugar e problematizar meus preconceitos e modo de enxergar o mundo. Mil beijos Ericona pensante!

Gil Santos disse...

ÉRICA, VOCÊ É UMA GUEEREIRA COMO TANTOS OUTROS NESSE IMENSO MUNDO, PORÉM SUA CORAGEM, SABEDORIA, EXEMPLOS E MOTIVAÇÕES SERVEM PARA QUE TANTOS OUTROS COMO EU TAMBÉM, QUE NÃO ENCONTRAM FORÇA, CORAGEM OU SABEDORIA SUFICIENTE PARA CONQUISTAR SUA FELICIDADE À SUA MANEIRA, SE ESTIMULEM COM SUAS PALAVRAS QUE SABEMOS QUE SÃO VERDADEIRAS, POIS CONHEÇO E ADMIRO VOCÊ O SUFICIENTE PARA ACREDITAR QUE SUAS PALVARAS E AÇÕES VÃO SIM LEVÁ-LA A CONQUISTAR O MUNDO. BEIJOS E FELICIDADES, CONTE COMIGO SE ACHAR QUE POSSO TE AJUDAR , POIS COM CERTEZA IREI.

Mi Guerra disse...

Sou tua fã e desejo qque essa juventude seja, simplesmente, você!

Krisnny disse...

Ê Mulher!!! Escritora!? :) Você escreve de forma simples e clara, faz o leitor entender até o que vc sente.

Orgulhosa de vc moça.

Quando te conheci, não nego que reparei em seu braço. Vc deve saber que todos reparam. Mas logo percebi que vc ñ faz dele uma deficiencia, senão um mero detalhe no seu corpo.

Desde então vc pra mim é o mesmo que qualquer pessoa que eu conheça. Nem menos nem mais epecial, excepto por seu vasto conhecimento.

Parabéns pelo texto, continue assim. Quem sabe no futuro uma biografia?

Felicidades!
Abraço! :)

Pandora disse...

Desista, eu sempre vou te ver como uma heroína. Passei a infância inteira admirando atletas você é a única atleta que tenho como amiga *_* A Jaci criança dentro de mim vibra de emoção \o/ por ter uma amiga ATLETA \o/ E eu amo quando você diz que vai nadar \o/ Poxa é legal \o/

A parte isso, Erica você é demais pela qualidade de suas reflexões, pela amiga divertida que é (gaiata), pelo jeito disponível de ser e pela profissional que vem se tornando a partir de seu esforço intelectual como aprendiz de bibliotecária, porque vida acadêmica é esforço sobretudo.

Te admiro demais Erica e torço muito por você, vibro quando você nada, sofro quando vejo que na vida ou na piscina não está dando para nadar e te acho mo gostosa, infelizmente ou felizmente sou hétero... mas se eu fosse lésbica.... aaah minha amiga vc estava perdida!!!

Ana Seerig disse...

Bom, Erica, acho que eu não tenho muito pra falar, né? Quer dizer, te conheci nessa fase de não querer falar muito sobre e, desde então, conversamos sobre isso e outras coisas (ok, talvez eu tenha discursado, por vezes). Também falamos muito nos últimos tempos e eu já te disse como fico feliz em te ver assim mais tranquila e segura com relação a si mesma. (Sério, eu vou lançar a campanha: "Seres nascidos sob o signo de Gêmeos devem ir direto pra terapia e serem felizes".)
E tu bem sabe que eu vejo vocês, deficientes, como mais pessoas na multidão. Por quê? Porque vocês não precisam de pena ou de tapinha nas costas. Uma coisa que minha mãe sempre diz "Deus não nos dá cruzes mais pesadas do que possamos carregar" e eu penso nisso. Tudo tem uma razão pra acontecer. E, se deficientes são seres especiais, são especiais não pela deficiência, mas espiritualmente, por terem esse desafio a mais na vida e não se deixarem assustar por ele.
Enfim, fui longa demais. Tu sabe o que penso. Não consegui ver o clipe da Fresno (banda gaúcha, aliás), o YouTube alemão é sacana. Sim, são gaúchos, conheci-os no começo da banda, mas aí começaram a ficar cheio de nove horas e de fãs, aí tu sabe, né?
Pra encerrar, belíssimo post.

Ariana disse...

"Eu sou um ser humano, antes de ser deficiente. E é assim que eu gosto de ser vista."

Você é um ser humano fantástico apenas. É o que te diferencia dos resto do mundo. Eu já te admirava por outras coisas, e depois desse texto "tapa" mais ainda.
Parabéns por ser assim tão determinada e nunca ter medo de buscar seus sonhos. Você só é chata, mas ninguém é perfeito né! rs


Beijos

Dama de Cinzas disse...

A internet tem esse lado positivo, da gente conhecer primeiro as ideias de alguém para depois conhecer o físico. Acho que isso facilitou muito para as pessoas que podem vir a sofrer uma rejeição inicial por preconceito. Mostrar primeiro o que pensa é como quebrar a barreira do julgamento inicial sem fundamento.

Mesmo eu não sendo deficiente sei bem o que é ter o físico como um bloqueio inicial, sei o que é se sentir assim e sei que podemos sim, superar isso, assim como você fez. Parabéns.

Beijocas

Aline Diedrich disse...

Você não queria falar, mas uma história assim é sempre muito bom compartilhar, pois é fonte de motivação para todos... E também uma forma de fazer com que todos possam rever seus conceitos... E, seu texto, não foge da "Erica pensante" ehehe

Ana Carolina Lima Da Rosa disse...

Erica.
Bom, acho que te conheço a um tempinho neste mundo da blogues fera, que eu tive o prazer de conhecer excelentes escritoras e acima disso fazer amizades.
Sabe que ando bastante destreinada em escrever, ao nosso mundo de blogs devido, bem a tantos acontecimentos, mudanças de um ano e meio pra cá, mas assim como você evitava falar no assunto da deficiência, sim eu entendo porque me sentia assim, como se "os outros só tivessem pena de mim, por ser orfã de pais. Mas acho que acima de tudo somos humanos e queremos ser tratados com respeito, acima de tudo,bom claro tive um acompanhamento de psicologa por vários anos, mas sabe aprendi a lidar e falar da perda, quando conhece alguém e vai se construindo uma amizade. Mas lá vem eu falando de mim, minhas historias. Eu só tenho a te dizer que eu te admiro muito por ser essa pessoa,amiga que tu é mesmo virtualmente e que a "deficiência, só te faça superar cada vez mais as tuas dificuldades e que consiga todos os teus sonhos, bom sempre conheci mais este lado seu escritora, mas sei que falar sobre assuntos que de certa forma nós atinge é bem complicado, bom eu já fiz mais uma historia, só tenho a dizer que te admiro bastante, que as pessoas sempre vão querer saber, procurar defeitos para depois quem sabe descobrir as qualidades! Amei o teu post espero que agora eu consiga voltar a ler o Gurias, O sacudindo a vida blogueira. E acredite sempre primeiramente em si mesmo! s2