Guria da serra

Sempre fui uma guria inquieta e teimosa, talvez por isso o campo não seja meu lugar favorito: é muito quieto e eu nunca tive a opção de "não ir", ao contrário do que eu gostaria. Quando pequena, talvez, se tivesse uma criança da minha idade por lá, eu me interessasse mais, mas não era o caso.
Paro pra pensar no que eu fazia para me ocupar. O pouco contato que tive com minha única prima, da idade de minha irmã, foram nessas temporadas da infância. Lembro que brincava mais com elas duas, pelo menos durante o tempo que elas permitissem. Próximo a casa do meu vô tinha, e ainda tem, um mato. Brincávamos lá. Pensando agora, era algo tipo Terabítia. Mas não, na nossa imaginação não havia monstros e um reino, apenas demarcávamos cômodos de uma casa e formulávamos alguma intriga novelesca.
Não, isso não durou toda a minha infância. Esses momentos fizeram parte do pouco tempo em que me entendi e tentei me acertar com minha irmã no infância, mas logo ela cresceu e ela e nossa prima (que hoje em dia nem sei onde anda) tinham mais o que conversar do que o quê brincar. Como disse, eu não parava nunca, então mesmo sozinha me embrenhava nos matos: me afundei em banhados, me arranhei em inúmeros galhos e me assustei à toa.
Tive uma breve experiência em cavalgar, mas há muito não arrisco mais, desde que tive a honra de montar em um cavalo que resolveu empinar. É, foi meio assustador. Na estrada de chão, ralei o joelho em muito cascalho. Junto com meu irmão, meu primo e meu tio, fingi pescar. Sim, e catei minhoca pra pescaria.
Dos hábitos campestres, tenho uma noção de como se faz queijo serrano, já que meu vô fazia e o irmão dele continua com a fabricação artesanal; aprendi alguns jogos de baralho; já participei daqueles churrascos entre amigos com todo mundo ao redor do gaiteiro (ou acordeonista) pra cantar as clássicas da música gaúcha; tomei Camargo (café com leite tirado direto da vaca) e outras coisitas mais que agora me fogem.
Virtualmente, ao que parece, alguns me têm como exemplo de gaúcha. Talvez por ter teimado em usar o "tu" mesmo no computador (quando percebi que o "vc" do msn estava se transformando em um "você" bem pronunciado pela minha voz, resolvi trocar o "v" e o "c" pelo "t" e o "u"), ou talvez pela minha mania de banda gaúcha. Só mais recentemente é que comecei a usar o "tchê" por aqui, mais na bobeira mesmo, então não deve ser por isso. De qualquer modo, me sinto bem o inverso de um exemplo, se bem que não devo ser a única. Pouco sei do "gauchês" (mesmo sendo gaúcha não entendi muito do dito pelos campeiros de O tempo e o vento), não tenho nenhum talento pra dança (apesar de achar lindo ver o pessoal dançando), tomo raramente chimarrão e nunca tentei fazer um... Enfim, tenho mais argumentos pra não me achar uma gaúcha que realmente sirva de exemplo do que o contrário.
Mas uma coisa que sempre me encantou no campo foi, sem dúvida, a paisagem. Não moro nos pampas (com aquelas planícies lindas que simbolizam o estado. Não, eu moro na serra, que, apesar de dificultar a realização pessoal de qualquer ser que sonhe andar de bicicleta por todos os cantos, é, em minha opinião, ainda mais bonito:


E é olhando pra essa paisagem que eu me sinto nostálgica, ingrata e uma poeira no mundo, até concluir que é melhor deixar de pensar e apenas observar.

8 comentários:

Luna Sanchez disse...

É lindo o nosso lugar, né, Ana?

Participei de CTG quando era bem pequena, ganhei concurso de Gauchinha (rs), sei preparar chimarrão (embora não aprecie muito), jamais beberia leite que acabou de sair da vaca (sou fresca até os ossos) e não abro mão do "tu" nem por decreto (nas conversas e comentários, apenas nos textos).

Beijos pra todas.

Babi Farias disse...

Ana, parece até que você estava do meu lado contando tudo isso. Adoro ouvir/ler história com essa ar memorável, com gostinho de "ah, era tão bom". Acho lindo demais sotaque gaúcho, um dos meus preferidos. E ei, gaúchos só tomam chimarrão ou vocês gostam também de "tereré"? Porque eu me amarro em tomar tereré e sei que é do MS. (:

Beijos, guria.

Rebeca Postigo disse...

Ana!!!
Que texto delicioso...
Me fez rememorar momentos parecidos...
Adorei!!!
Realmente, memórias são nosso tesouro...
Obrigada por você compartilhar algumas joias raras conosco... =)

Bjs

Vivian disse...

Belo texto!
É sempre bom relembrar a partes da infância!
E o campo é lindo!
*Para observar...rsrrs
Prefiro a cidade!!
Também sou gaúcha, mora em Gravataí!
Respeito mas não sou Tradicionalista!
Beijos

Allyne Araújo disse...

ontem comentei teu post, mas a net daqui fez o favor de cair bem na hora da postação do comentário.. que dizia resumidademente: Adorei o teu texto e temos pontos parecidos,mas q ao contrario eu adoro um campo, mato e cheiro de cocô de gado, srsrsrsrsrsrsrrssss..... bjooooo

Dayane Pereira disse...

kkk cocô de gado!
Haha eu adoro o cheirinho do mato, adoro essa vista de serra. Queria morar em algum lugar que não tivesse muros de concreto pra todo lado, apesar de amar a cidade, mas tenho essa queda por campo.

Vaneza S. disse...

Eu sou da turma da Luna, não bebo leite recém tirado da vaca nem por decreto de Deus. E eu sonho em conhecer os Pampas, guria. Eu tenho alguma coisa com o RS que eu nao sei explicar... acho que se eu acreditasse em outras vidas, diria que eu vivi aí... em algum lugar. Por ironia do destino ainda não tive oportunidade de conhecer... sonho com o dia que não vou apenas cantar "da janela do avião eu vejo Porto Alegre".

BeijoZzz

Érica Ferro disse...

Ah, que belas recordações, não é, Seerig?
Nostalgia boa, tchê!
Sim, foi por sua causa que peguei essas manias de "tchê" e tu". Às vezes até o "bah"! O "tu" eu uso sempre no mundo "real", mas me senti mais a vontade a falar "tu" no mundo virtual.
E "bah" e "tchê", falo de enxerida mesmo.

Adorei o seu texto.

E que imagem linda essa da serra gaúcha. Ainda quero conhecer, hein?

Beijo.