Sobre o Rio Grande do Sul

A blogosfera me apresentou muitas pessoas de outros estados, mas essa passada pela Alemanha está me fazendo conviver mais diretamente com brasileiros de outras regiões e, ao mesmo tempo que percebo quão imensas são as diferenças culturais e as fantasias que as pessoas tem sobre os gaúchos, tenho pensado sobre a história em si do RS e o que ela explica sobre tudo isso. 

Ao que parece, além de acharem os gaúchos egocêntricos ao extremo, o resto do Brasil tem a visão de no RS todo mundo é incrivelmente lindo e incrivelmente rico, que é a "Europa brasileira". Só que nessa imagem são esquecidos tantos, mas tantos detalhes. Em questão de riqueza, sim, há pobres no RS, mas sim, é um estado bem estabelecido economicamente. Mas o dinheiro não caiu do céu. 

Monumento Nacional ao Imigrante, em Caxias do Sul - RS.

Os imigrantes que vieram pro Brasil em busca de uma vida melhor (tentei explicar sobre a propaganda brasileira enganosa que foi lançada na Europa pra atrair imigrantes pra minha professora de alemão que me perguntou porque tanta gente foi pra lá, mas é algo complicado), chegaram e encontraram nada, havia matas virgens onde eles esperavam encontrar terras prontas para serem cultivadas. Aí, quando eles conseguiram se estabelecer, veio a guerra e eles sofreram sérias mostra de preconceitos por falarem sua língua nativa. Italiano e alemão eram línguas proibidas e quem não sabia falar português tinha que ser escondido, como a minha bisavó, pra não sofrer nada. E não falo de preconceito de outros cidadãos, falo de exército e polícia prontos a abusar e humilhar imigrantes. Falo de estupros, destruição de bens do qual vinham o sustento dos imigrante, de falta de liberdade, como se os imigrantes fossem culpados da guerra que acontecia na terra que eles tinham deixado há anos.

Outro ponto importante da cultura gaúcha é a semelhança com a cultura argentina e uruguaia, afastando ainda mais o estado do resto do país. Essa é outra relação que deve ser resgatada na história. Enquanto o RS lutava contra o resto do Brasil na Revolução Farroupilha, os castelhanos também tinham suas lutas, e não era estranho ver um no auxílio do outro. Giuseppe Garibaldi, o italiano que se tornou heroi nos pampas e casou-se com uma gaúcha, narra em suas Memórias (livro mais do que recomendado) sua visão dessa relação entre os povos, sem falar que apoiou e lutou ao lado deles. Não sei se é a mera proximidade de fronteiras, não, acho que é semelhança de ideias e sentimentos. E talvez deva arriscar em questão de cultura indígena. Talvez lá, bem antes de Portugal e Espanha fazerem seu Tratado de Tordesilhas, essa proximidade regional já existisse. Aliás, o famoso chimarrão gaúcho é de origem indígena e também é tradicional no Uruguai e na Argentina com o mero nome de mate, então pode ser esse espírito do compartilhar na roda de chimarrão que está presente na cultura dos três povos.

E os índios também são responsáveis por boa parte da cultura gaúcha. E a relação deles com os imigrantes e os "brasileiros" que por ali foram viver? Bom, eles não faziam mal a quem não fizesse mal a eles. E, registrou o Garibaldi em seu diário, que na Guerra dos Farrapos os índios não faziam mal nenhum aos revolucionários, já com os ximangos (que eram a favor do governo brasileiro e lutavam contra os farrapos) a história era diferente. Agora, se os índios não faziam mal a quem não fazia mal a eles, não deve ser difícil deduzir o que os motivava contra o governo brasileiro.

Enfim, o que quero dizer aqui é que o povo que construiu a cultura e o cenário (não só visual, mas econômico também), lutou muito por isso. Se é um estado bem-sucedido não é à toa. Mas também somos brasileiros e não sei o que pode parecer tão hilário em dizer que no exterior é necessário explicar que o Brasil não é só formado por negros e mulatos, tal como nunca vou entender como a parte negra brasileira é vista como mais sofrida do que a dos imigrantes. Quer dizer, alemães, italianos, açorianos e tantos outros povos também passaram fome, também batalharam, também sofreram preconceito.

E por que diabos não podemos nos orgulhar do nosso estado depois de todas essas histórias? Não, não nos achamos melhores do que ninguém, apenas nos orgulhamos do que somos. Acho que aqui cabe uma citação feita em uma matéria sobre o aniversário do hino gaúcho (link para quem quiser ver):

"O hino é ufanista? É. E daí? Nós cantamos, se os outros não cantam o problema é deles."  (Terson da Costa Praxedes, pesquisador do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore)   

Antes que haja interpretações erradas, o que ele quer dizer basicamente é: "Se os outros não cantam seus hinos, que não nos julguem por saber o nosso". Ou seja, não é por termos orgulho da nossa história e da nossa cultura que somos egocêntricos. Acho que, na verdade, todos deveriam ter esse orgulho e realmente lamento por, na história nacional, não exista nada que nos faça ter o patriotismo que nosso gigantesco e complexo hino apresenta. Há gaúchos verdadeiramente bairristas? Sim, há, tal como há pessoas com todo tipo de preconceito, mas não são maioria e, mesmo que fossem, não é justo julgar TODAS as pessoas de um povo pela atitude de alguns.

Enfim, esse texto é mais um desabafo de conclusões, pensamentos e sentimentos, do que pretensão de ensinar História, pedir reflexões ou iniciar revoltas. É só mais um post que dá jus a ideia desse blog de mostrar e conversar sobre as diferenças culturais desse nosso gigantesco Brasil. 

3 comentários:

Pandora disse...

Os gaúchos tem muito em comum com os pernambucanos em relação ao seu bairrismo e sua megalomania também. Quem nessa cidade não se orgulha de ser a Veneza Brasileira, ter a primeira ponte da América, a primeira sinagoga, sim Recife foi o primeiro lugar da América que experimentou viver com Liberdade Religiosa ainda no século XVII, Olinda já foi a capital da riqueza do mundo no século XVI, temos heróis, mitos e histórias sobre nós, nossas revoluções, insurreições e derivado... e tudo e tal...

Mas, quando eu estava na escola - meu Deus isso já faz mais de 10 anos - uma professora me disse algo que eu guardo no coração: "Bairrismo demais é ignorância e nos limita!" Apesar de amar minha cidade, valorizar suas culturas - o plural não é erro de digitação - e tudo o mais eu prefiro adotar uma postura de eterna curiosidade em relação ao outro, sempre quero conhecer a cultura alheia, acho interessante a cultura e a história gaúcha e esse sentimento que vocês tem em relação a si... esse isolamento do resto do país - talvez pela colonização tardia do sul... sei lá...

Admiro muito, de algumas coisas até gosto - como o Cesar Passarinho - e tento até compreender quebrando o filtro do exótico... Como faço com os países da África, por exemplo... Mas continuo tendo guardando a opinião de minha professora tanto em relação aos gaúchos, como em relação aos pernambucanos... Bairrismo em pequena dose é bom, mas bairrismo demais é ignorância e limita as pessoas para compreender o outro.

P.S.: Os pernambucanos também conhecem seu hino e cantam ele em ocasiões como finais de campeonato, o hino é super ufanista e tem versões em vários de nossos ritmos tradicionais.

Saca esse vídeo tem um pedaço de nosso hino e outras coisitas mais das quais nos orgulhamos: https://www.youtube.com/watch?v=i_YPUsepky0

Notas de Rodapé disse...

Os rótulos são sempre um problema Ana, para muitos os gauchos não querem ser brasileiros e não entendem o orgulho que vcs têm do seu estado de vcs, aliás, orgulho que todos os outros estados deveriam ter, de suas próprias conquistas, de sua cultura, etc.

Enfim, eu amei o seu texto, um ponto muito legal de ser discutido.

Tita disse...

Antes de tudo, quero fazer uma correção: a Anita Garibaldi não era gaúcha, era catarinense de Laguna, cidade que foi fundamental na defesa da República Farroupilha.

Também quero acrescentar que a 2a. Guerra Mundial não foi o único período em que os imigrantes sofreram no RS. Os primeiros imigrantes europeus chegaram poucos anos antes da Revolução Farroupilha, trazidos numa campanha do Império Brasileiro. Muitos esperaram por anos para receber as terras (cobertas de mata nativa e com animais com os quais eles não estavam acostumados na Europa). Quando eclodiu a Guerra dos Farrapos, eles ainda não tinham a cidadania brasileira, muitos não falavam o português... E se viram em meio a uma guerra em que tudo ficou indefinido para eles. Aconselho a leitura de "A Ferro e Fogo", de Josué Guimarães. Sensacional!

No mais, concordo plenamente com todo o texto, Ana.
Como vc mesma diz, existem pessoas preconceituosas, existem pessoas ignorantes... mas isso existe em tudo quanto é lugar. Já morei em 5 estados diferentes, na região sul, sudeste e nordeste... E vi preconceitos em todos esses lugares.

Quanto ao bairrismo, foi uma das coisas que me fez apaixonar pelo povo gaúcho. Bairrismo é como amor-próprio. Eu me amo e isso não me impede de amar outras pessoas. Enxergar e valorizar as coisas boas que me cercam, valorizar a minha família (com todos seus defeitos e erros), não me impede de ver as coisas boas e valorizar os outros.
O problema é quando esse amor-próprio (bairrismo) cega a ponto de não querer conhecer outros lugares, outros povos, outras culturas por achar que esses não tem valor.
Claro que conhecer não significa aceitar e gostar de tudo incondicionalmente. Assim, posso achar linda a Quinta da Boa Vista, do Rio, mas detestar o funk. Posso me emocionar com um show intimista do pagode de raiz num casarão do centro histórico do Rio, mas detestar carnaval. (sim, isso tudo é real e eu vivi).

Ah, mais um adendo... quanto à questão de sermos um estado "rico"... o que realmente acontece aqui é que a desigualdade é muito menor que em outros estados. Lembro como fiquei chocada nas ruas de Salvador, passando ao lado de prédios luxuosíssimos e tendo o carro cercado por muitos meninos (todos negros) pedindo esmola a cada sinaleira. Notei que mesmo na Bahia, estado mais negro do país (acho), o verdadeiro preconceito é com os pobres. Lembrei daquela música do Caetano: "mas presos são quase todos pretos Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres".
Valorizar a cultura autêntica de cada região é fundamental, principalmente nos dias de hoje. Sermos bairristas talvez seja a única saída para não sermos pulverizados por essa cultura de massas imposta pela indústria de entretenimento (tv, gravadoras, plim plim...), que diz que "todo mundo ama funk" e vende os "lek lek" como melhor música do ano...

Valeu pelo post, Ana! Bem esclarecedor.